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Energia solar demais faz usinas reduzirem a produção - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

No domingo (23), entre 11h e 13h30, usinas espalhadas pelo país receberam ordem para reduzir a produção de eletricidade. Não houve falta de energia. Houve o contrário: sol suficiente nos telhados brasileiros para que parte da geração precisasse ser desligada às pressas.

Duas vezes em três meses, o ONS mandou parar de gerar

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por manter oferta e consumo de eletricidade em equilíbrio, acionou no domingo o Plano de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição. É a segunda vez que isso acontece em 2026. A primeira foi em 7 de junho, quando o operador pediu a suspensão de 1.000 megawatts de geração entre 10h e 14h, faixa de maior incidência solar.

Neste domingo, o volume cortado foi de 1 gigawatt — o mesmo montante de junho —, operacionalizado pelas distribuidoras, segundo informação do próprio ONS à Reuters. A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) informou que a restrição durou duas horas e meia e atingiu pequenas centrais hidrelétricas, usinas a biomassa e parques eólicos e solares conectados às redes das distribuidoras. No setor, a prática é chamada de curtailment, a interrupção deliberada de geração disponível.

O plano foi aprovado pela Aneel em 2025 e é tratado pelo ONS como último recurso, depois de esgotadas as outras medidas. A Abradee diz que as distribuidoras seguirão cumprindo seu papel, mas cobra procedimentos mais detalhados, com critérios "claros, robustos e previamente definidos" para decidir quem corta o quê. Segundo a associação, a ausência desses pontos "pode trazer insegurança jurídica para todo o setor elétrico" — as paralisações obrigatórias geram prejuízo financeiro a quem deixa de vender energia.

Por que sobra energia num domingo de sol

O sistema elétrico precisa manter, em tempo real, o mesmo tanto de energia produzida e consumida. Quando a oferta passa do necessário, a rede corre risco de sobrecarga e de desligamento automático de equipamentos.

A micro e minigeração distribuída — placas solares em telhados de casas, prédios, comércios e propriedades rurais — já soma mais de 43 gigawatts de capacidade instalada, segundo estudos citados pelo ONS. Em domingos e feriados, o consumo cai, mas o sol continua batendo. O resultado é que a parcela da demanda que precisa ser atendida pelas usinas grandes encolhe, e é justamente nessas usinas que o operador consegue mexer.

Aí está o nó: o ONS não comanda diretamente os painéis instalados nas redes das distribuidoras. Ele primeiro reduz o que controla — grandes hidrelétricas, termelétricas, parques centralizados — e, quando isso não basta, precisa pedir às distribuidoras que reduzam a geração das pequenas usinas conectadas a elas.

O tamanho do aperto ficou visível no Dia dos Pais de 2025. Naquela tarde, a geração distribuída chegou a representar 37,6% da demanda do sistema. Para equilibrar, o operador reduziu hidrelétricas e termelétricas e cortou 98,5% do potencial estimado de geração eólica e solar centralizada. Ao fim do processo, restaram cerca de 2 gigawatts de geração flexível, algo como 5% do total, como margem de manobra.

O próximo passo é o corte automático

O ONS prepara uma camada adicional de proteção, apelidada de Erag — Esquema Regional de Alívio de Geração. O mecanismo foi detalhado por Alexandre Zucarato, diretor de planejamento do órgão, durante a terceira edição do MinutoMega Talks, evento da MegaWhat.

A referência é o Erac, esquema já existente que corta automaticamente parte do consumo em situações críticas para evitar apagão de grandes proporções. No Erag, a lógica se inverte: em vez de cortar carga, o sistema reduz geração. Só entra em cena depois de o operador ter reduzido o máximo da geração centralizada e executado o plano de gestão de excedentes — ou seja, depois exatamente do que aconteceu no domingo.

O desenho em estudo considera alocar 3 gigawatts no Erag, divididos em três estágios de 1 gigawatt cada, com a proteção instalada na chamada minigeração remota, de forma automática e seletiva, para reduzir geração sem atingir o consumo dos clientes. Está previsto para setembro um encontro com as distribuidoras para apresentar o plano e checar a viabilidade técnica, e a intenção é implantar um estágio em uma distribuidora, como piloto, ainda este ano.

O problema de fundo, segundo Zucarato, é que boa parte dessa produção não pode ser vista nem comandada pelo operador. "A geração distribuída traz um grau de complexidade porque falta observabilidade e controlabilidade", disse.

Enquanto isso, o mercado livre chega à TV

No mesmo domingo, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) estreou uma campanha nacional para apresentar o mercado livre de energia a um público que poderá chegar a cerca de 90 milhões de brasileiros. A ação tem Celso Portiolli, no SBT, e inserções nos programas de Edu Guedes e Sônia Abrão, na RedeTV!. A campanha compara a futura troca de fornecedor de energia à escolha de banco ou operadora de celular.

O calendário já está posto por decreto do governo federal. Desde 2024, grandes consumidores — indústrias, shoppings, empresas maiores — podem comprar energia fora da distribuidora. A partir de novembro de 2027, entram consumidores comerciais e industriais de baixa tensão, como lojas de rua, padarias e restaurantes. Em novembro de 2028, chega a vez dos residenciais.

Duas coisas não mudam. A entrega da energia continua sendo feita pela concessionária de cada cidade, com a infraestrutura que já existe — quem reclama de queda de luz não deve esperar melhora por causa da troca de fornecedor. E o contrato tem prazo mínimo de 12 meses. Para o caso de a empresa escolhida interromper as operações, o decreto criou o Supridor de Última Instância, papel que ficará com as distribuidoras locais até o fim de 2030.

O ambiente livre hoje reúne mais de 94 mil consumidores, sendo 9.768 que ingressaram no primeiro semestre deste ano, e está concentrado em empresas de alta tensão.

A economia prometida tem letras miúdas

O Ministério de Minas e Energia estima que a concorrência possa gerar reduções de até 20% na conta de luz de pequenos estabelecimentos. Esse desconto, porém, não incide sobre o valor total da fatura: tributos, encargos setoriais e a tarifa de distribuição continuam sendo cobrados. Uma queda de 10% no preço da energia não é uma queda de 10% na conta.

"Há números que chegam a uma redução da conta de 30% e números de 6% ou 2%. É muito difícil, neste momento, falar em números, sobretudo porque dependerá do apetite das empresas que atuarão nesse mercado", disse Gerusa Côrtes, diretora de Operação de Mercado da CCEE. Ela também afirma que a competição abre perspectiva de barateamento e que as comercializadoras poderão oferecer serviços, como avisar os melhores horários para consumir.

Do lado de quem já migrou, há casos concretos. Uma empresa de São Bernardo do Campo pagava R$ 37 mil por mês de eletricidade e, depois de passar a comprar no mercado aberto há dois anos, viu a conta cair quase 30%. "Por mês, R$ 10 mil é uma economia gigantesca, R$ 120 mil por ano", disse Milton Bigucci Junior, diretor técnico da construtora.

A diferença é que grandes consumidores contam com equipes técnicas para analisar contratos, e o pequeno consumidor não. Os pontos a verificar em cada oferta são duração do contrato, índice de reajuste, multas, cobranças adicionais e regras para cancelamento ou retorno ao mercado regulado.

Quem prefere gerar a própria energia

Enquanto o mercado se abre, parte dos consumidores vai pelo caminho oposto: produzir em casa. As vendas de cotas de consórcio cresceram 14,6% no primeiro semestre de 2026 sobre o mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios, e o consórcio para energia solar aparece principalmente entre empresas, produtores rurais, condomínios e famílias com contas mais altas.

A lógica é distribuir no tempo um gasto que se concentra no início. "Um sistema solar exige um desembolso relevante. E o consórcio entra justamente como uma alternativa para transformar esse investimento em planejamento, sem os juros tradicionais de um financiamento, embora existam taxas", diz Juciel Oliveira, fundador da Monteo. A contemplação ocorre por sorteio ou lance, sem garantia de acesso imediato à carta de crédito: "O consórcio não é o instrumento de quem precisa ligar o sistema no mês que vem", afirma Quiron Prates, fundador da Dakota Capital.

O que fazer com essa informação

Se você tem placas solares ou pensa em instalar, o item a acompanhar nos próximos meses é o Erag. O desenho em estudo prevê atuação na minigeração remota, em três estágios de 1 gigawatt, e o detalhamento operacional será discutido com as distribuidoras em setembro, com piloto em uma delas até o fim do ano. É esse detalhamento que define, na prática, quanto de geração pode ser reduzido automaticamente numa emergência — e é exatamente a falta de critérios previamente definidos que a Abradee aponta como fonte de insegurança jurídica. Cortes emergenciais deixaram de ser evento raro: aconteceram duas vezes em pouco mais de dois meses, e o padrão se repete em domingos e feriados, quando o consumo cai e a produção solar segue alta.

Se você é pequena empresa (a partir de novembro de 2027) ou consumidor residencial (a partir de novembro de 2028), o trabalho é comparar contratos, não esperar um desconto que apareça sozinho na fatura. Vale registrar três coisas antes de assinar: o desconto anunciado incide sobre o preço da energia, não sobre o total da conta, porque tributos, encargos e distribuição continuam; o contrato tem prazo mínimo de 12 meses, com índice de reajuste, multas e regras de saída que variam de oferta para oferta; e a qualidade do fornecimento continua nas mãos da concessionária local, com o Supridor de Última Instância como garantia de que a luz não cai se a comercializadora escolhida parar de operar.

E para quem avalia gerar em casa por consórcio, o cálculo recomendado por Oliveira é comparar o custo total do projeto, incluindo taxa de administração e reajustes, com a economia estimada em energia ao longo dos anos. "O erro é comparar simplesmente parcela do consórcio versus conta de luz do mês", diz. Prates acrescenta um cuidado de dimensionamento: "O sistema que custa R$ 100 mil hoje pode não custar R$ 100 mil quando ocorrer a contemplação".

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